23 June 2007

Horas e Deshoras

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Por Horas e Deshoras urge falar do tempo. Longas noites, noites longas... Ah, o tempo fluido, aquele que se dilui e se esvai, que se escoa, como água por entre os dedos... Passa por nós, indiferente. Brinca connosco. Manipula-nos como marionetas. Mas não jogamos nós, igualmente, com ele? Não temos a capacidade imensa de transformar horas em segundos e minutos em horas, ao sabor das nossas emoções? (Ou talvez não?!) Será ele o grande senhor da vida?
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Falta de tempo. Perder tempo. Passar o tempo. O querer... ter tempo. Quando se quer até temos tempo para ter tempo... Inúmeras são as expressões, outros tantos os provérbios.
O tempo é a unidade de medida da nossa vida, tempo de fecundar, nascer, viver e morrer, tempo de amar... um tempo dos homens, cíclico. Meses que desfilam, estações do ano que se sucedem, elos de uma cadeia, sucessão de agoras. (Um caminhar rumo a um qualquer estádio superior de sabedoria?) E um outro tempo, físico, que inebria o homem e se sobrepõe a ele, um tempo elástico, infinito. Essoutro, dito de eternidade, passado, presente e futuro desfilando, qual trem, em linhas paralelas, sem regresso.
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O tempo é frequentemente simbolizado pela rosácea ou pela roda, pelo seu movimento tournant, pelos 12 signos do zodíaco, que descrevem o ciclo da vida, e, em geral, por todas as figuras circulares. Todo o movimento reporta ao mundo de amanhã, da criação contínua.
O centro do círculo, imóvel, tornando possível o movimento dos seres, opondo-se àquele como a eternidade ao tempo, o que explica a definição agostiniana “O tempo é a imagem móvel da imóvel eternidade”.
O que era para Santo Agostinho o tempo móvel, o nosso? no sentido em que é finito? Então o nosso tempo é uma imagem temporária da eternidade? Somos insignificantes perante algo eterno? La Palisse não diria melhor.
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Sendo a eternidade um tempo infinito, neste sentido pode ser imóvel porque inabalável. Mas trata-se de um conceito indemonstrado. É difícil demonstrar que algo exista para sempre. A existir algo eterno, então o tempo desse algo é infinito, logo imóvel neste sentido.
Por isso a Eternidade pode ser algo metafísico, uma completa ilusão. Mas teria de ser o vazio? Quanto mais longo o nosso tempo, mais real e cheia é a vida. Vazia é a vida de um micróbio que se esgota em dias.
Quanto mais breve, maior a sensação de futilidade. Quanto mais longa, mais se aproxima da imobilidade de que fala Santo Agostinho. Daí que na Eternidade haja tempo: tempo que podemos medir se houver espaço e tempo que podemos usufruir. Não pode mesmo haver mais tempo; é tempo para sempre. (Para sempre e Nunca mais, duas expressões tão paradoxais e tão sinónimas...).
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Tentando exorcizar a angústia e o efémero, a relojoaria contemporânea deu aos relógios uma forma quadrada, simbolizando, assim, a ilusão humana de escapar à roda inexorável impondo-lhe a sua medida. (Um recurso da arte? Não é a arte concebida como uma luta contra a morte, um combate pela eternidade?)
Enquanto o círculo simboliza os ciclos, os recomeços, as renovações, o quadrado simboliza o espaço, a terra, a matéria. Tempo sucessão, sucessão de agoras. Tempo fluidez, rio que corre. Parará o tempo em casa daquele que o sabe usar, como disse Leonardo?Por definição, o tempo humano é finito e o tempo divino eterno, ou melhor, é a negação do tempo, o ilimitado. Não existe entre eles nenhuma medida comum possível. A eternidade não remete para o infinito, pois nele não há tempo. Sem a noção de tempo não há finitos nem infinitos, há vazio, tal como é necessário haver luz para haver cor. Sair do tempo é sair da ordem cósmica. O tempo está indissoluvelmente ligado ao espaço.
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Hoje, parece que se concebe o tempo de uma perspectiva espacial. Isto é, o tempo só começa a existir quando há espaço, ou seja, quando há matéria. Um minuto passa quando, por alterações no espaço, se verifica que este passou. Deste modo, num Universo vazio não haveria tempo, porque não haveria espaço ou matéria.
Jorge Luis Borges disse ser irrespeitoso falar de tempo e espaço ao mesmo tempo, uma vez que podemos prescindir do espaço em pensamento, mas não do tempo. Parece concebível falar em tempo sem espaço, embora fosse impossível medi-lo, pois só podemos medir por alterações no espaço. Se imaginarmos uma mente consciente num Universo vazio, sem algo com que medir o tempo, a mente não saberia quanto tempo passou. Deste modo, o prisioneiro que perde a consciência do tempo que esteve preso.
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Um Universo vazio também é concebível, mas sem matéria seria impossível de medir. O espaço vazio já existe antes de existir matéria. Com a expansão do Universo, todos os dias a matéria se espalha por mais "espaço vazio" e esse espaço já existe antes de a matéria lá chegar... terá fim?Passem quantos séculos passarem, os dias nascerão e morrerão iguais, estejamos nós por cá ou não?
E será que apenas a Física merece credibilidade enquanto estudiosa do tempo? Será a metafísica o lugar dos disparates?
Ah, e existem, ainda, aqueles que, pretendendo ordenar o tempo, como o fez a Conferência Mundial sobre o Tempo, estabeleceram, em 1884, o primeiro meridiano em Greenwich, símbolo poderoso, ainda que muito contestado.
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Depois destes devaneios, aterremos no presente. Será o presente um problema de consciência? Apesar de sermos seres conscientes, nem sempre actuamos de forma consciente de nós próprios. Muitas das nossas actividades são mecânicas. Só de quando em vez paramos para pensar: Sou eu que estou a fazer isto neste momento, num momento de que muitos animais não conseguem desfrutar.
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O presente é, frequentemente, o futuro antecipado. Vivemo-lo intensamente enquanto projecto, antecipando um prazer ou uma ansiedade, vivemo-lo ainda quando já memória. Por exemplo, programamos umas paradisíacas férias de Verão, passamos os meses anteriores ansiando-as, imaginando quanto nos vão ser reparadoras e apaziguantes, recordamos, depois, durante anos, quão maravilhosas foram, mas o instante preciso, o durante, o enquanto, o “presente”, escoou-se vertiginosamente.
Deste modo, o presente parece, afinal, o menos importante porquanto o mais fugaz. Ainda assim... tão efémero mas tão necessário.
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*imagens Willis Ronis
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1 comment:

peregrino said...

Magnífica a análise e a abordagem crítica de um tema tão complexo e abrangente como o é, sem dúvida, o TEMPO.

Real, irreal, infinito, sem princípio nem fim? Perguntar é bom. :))

Gostei muito.

Abraço.